Funeral de
emargencia

Pequena conversa sobre budismo

Acalmando a Mente e Encontrando a Verdade: O Legado dos Que Partiram


Acalmando a Mente e Encontrando a Verdade: O Legado dos Que Partiram

Sejam muito bem-vindos à cerimônia de Eitaikyō de hoje. Ultimamente, ao assistir às notícias na televisão, muitos de vocês devem estar preocupados com o futuro da sociedade e com a confusão na política.

Nós sofremos assim porque sentimos ansiedade por coisas que ainda nem aconteceram e acabamos pensando demais. No esforço desesperado de proteger a nossa vida atual, sofremos com confusões futuras que nem ocorreram e, além disso, nós deixamos levar pelos títulos de "quem falou?", tornando difícil saber o que é verdade.

Por isso, o Buda Shakyamuni deu mais importância ao "o que foi dito?" do que a "quem está dizendo?". Se existe um lugar onde nós, que normalmente temos dificuldade em ser sinceros, conseguimos ser sinceros, esse lugar é diante dos falecidos. Porque os falecidos deixaram para trás todos os títulos que tinham em vida e se tornaram Budas.

O que os falecidos nos ensinam através de suas próprias vidas é o fato de que "a vida humana tem limite e nada acontece exatamente como queremos", e a verdade acolhedora de que "mesmo assim, estamos vivos e amparados por muitas coisas que se apoiam mutuamente". Aquele que, mesmo após a morte, continua a curar a nossa ansiedade incerta, nós chamamos de Buda.

O Eitaikyō é uma cerimônia para nos reencontrarmos, através daqueles que já partiram, com os ensinamentos imutáveis do Buda Amida. Espero que este momento de oração aqui hoje seja uma oportunidade para descansar um pouco o "pensar demais" dentro da cabeça e entregar-se à grande compaixão de Buda que nos chega através dos nossos antepassados. Sejam muito bem-vindos hoje.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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Além da Nossa Própria Justiça


Além da Nossa Própria Justiça

Boa tarde a todos. Sejam muito bem-vindos à nossa cerimônia de Higan. Nesta época, as flores amarelas dos ipês começam a florescer e sentimos a chegada da primavera. Embora ainda tenhamos dias um pouco frios, desde os tempos antigos o Higan é um momento especial em que visitamos o templo sentindo essa renovação da estação e lembrando com carinho dos nossos entes queridos. Hoje, também lemos solenemente os nomes dos familiares falecidos que cada um de vocês trouxe em seus corações e registros.

No dia a dia, costumamos pensar que somos pessoas corretas, que trabalhamos com honestidade, respeitamos as regras e não prejudicamos ninguém.

No entanto, como reagimos quando as coisas não saem como planejamos? Diante de um pequeno inconveniente, de uma indisposição de saúde ou de uma diferença no trabalho e nas relações humanas, nosso coração rapidamente se enche de queixas e descontentamento. Logo começamos a pensar que não temos culpa e passamos a julgar os outros em nossa mente.

Acreditamos que vivemos em paz porque somos prudentes e de bom caráter. Mas a verdade é diferente. Nós apenas não encontramos ainda uma situação extrema que desmorone a nossa rotina. Se as circunstâncias ou o ambiente em que vivemos mudarem apenas um pouco, qualquer um de nós pode perder a calma e se tornar alguém que fere os outros.

A paz que temos hoje, a ponto de podermos nos queixar de pequenas coisas, na verdade é um grande privilégio e não é fruto da nossa própria força. Ela existe porque os nossos pais, antepassados e entes queridos, cujos nomes lemos hoje, enfrentaram imensas dificuldades para construir e nos deixar a base da vida sobre a qual pisamos.

Quando reconhecemos essa realidade, a ilusão de que somos totalmente corretos desaparece. Percebemos que o alimento de cada dia, o trabalho e a convivência nunca foram coisas óbvias, mas sim presentes preciosos transmitidos por aqueles que partiram antes de nós.

O ser humano é frágil e, dependendo das condições, pode endurecer o coração e julgar os semelhantes com facilidade. É exatamente por sermos assim que o Buda Amida estende sua mão e declara que jamais nos abandonará. E aqueles que já partiram, agora como Budas, também nos acolhem e iluminam os nossos passos a partir dessa mesma compaixão.

O Higan é o momento de abandonar o orgulho da nossa própria justiça e, com profunda gratidão aos que vieram antes, retornar à consciência de que somos sustentados por essa grande vida.

Guardando no peito a memória dos nossos entes queridos e a gratidão por esta paz recebida, voltemos com passos serenos para o nosso trabalho e para o convívio com nossas famílias.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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O Elo Sagrado da Memória e da Gratidão


O Elo Sagrado da Memória e da Gratidão

Em todo o mundo, existem cerimônias em que as pessoas lembram dos que já partiram. Na cultura japonesa, o serviço de Obon também é um desses momentos de carinho e memória.

O Obon começou com a história de um praticante dedicado que lembrou de sua falecida mãe com profunda gratidão. Hoje, nós decoramos este templo com muitas lanternas para realizar este serviço em sua memória. Na sociedade moderna, o significado fundamental destas cerimônias costuma ser esquecido. No entanto, o fato de estarmos reunidos aqui hoje, erguendo estas lanternas, tem um motivo muito claro e profundo.

Hoje, gostaria de falar sobre a palavra que usamos para nos despedir. Em japonês, a saudação de despedida é SAYOUNARA. Todos os idiomas do mundo possuem palavras para dizer adeus. Porém, a origem da palavra Sayounara possui um significado muito especial.

Antigamente, quando os japoneses se encontravam, conversavam e realizavam o que precisava ser feito, ao terminar tudo, eles diziam: "Sendo assim, já que tudo o que devia ser feito foi concluído, eu me retiro daqui." A frase "Sendo assim" (Souiu-kotode-arunara-ba) acabou ficando mais curta e se tornou a palavra Sayounara.

Esta palavra mostra a atitude fundamental do ser humano diante da vida. Nós nascemos neste mundo com um propósito e tarefas a cumprir. E, quando realizamos completamente esse propósito, partimos em paz. Este é o pensamento profundo sobre a vida que existe na base da cultura japonesa.

Sobre as lanternas de Obon, às vezes se diz que acendemos luzes para que os espíritos dos falecidos não se percam no caminho de volta para casa. Mas o verdadeiro significado é diferente. Nossos antepassados e entes queridos falecidos cumpriram todo o seu propósito e missão nesta vida e seguiram diretamente para o seu próximo destino: a Terra de Buda. Eles não estão perdidos em lugar nenhum. E eles continuam a nos acompanhar com muito carinho a todo momento.

Nós colocamos lanternas no teto do nosso templo com os nomes das pessoas queridas justamente para confirmar este fato. Sempre que sentimos saudades e queremos encontrá-los, eles surgem em nosso coração. Eles não vêm de um lugar distante apenas neste dia. Eles sempre estiveram ao nosso lado desde o início. Como sinal de gratidão por essa presença constante, escrevemos seus nomes nas lanternas.

A expressão "Sendo assim" significa que todas as obrigações nesta vida foram cumpridas. Então, qual foi o papel importante que o seu ente querido cumpriu? Algumas pessoas podem pensar se essa pessoa realizou algo tão grande assim.

A maior missão que seu ente querido cumpriu foi ter nascido para encontrar você e deixar a memória e a presença dele dentro de você. Pelo fato de eles terem nascido, encontrado você e deixado essa marca em sua vida, nós podemos ter a certeza absoluta de que o amor e os laços invisíveis realmente existem. É por isso que, com profunda gratidão, guardamos o nome deles no coração e o escrevemos nas lanternas.

A despedida, o Sayounara, não é um simples fim. Ela é o ato final e essencial que torna o encontro algo completo e perfeito. Homenagear os entes queridos que cumpriram sua missão, agradecer por termos nos encontrado, compartilhar uma refeição com os companheiros que estão aqui hoje e celebrar a alegria de viver. Este é o verdadeiro significado do serviço de Obon que preparamos com tanto carinho. Erguer estas lanternas aqui hoje é um ato de imenso valor e profundo significado.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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Amparados pelos Laços Invisíveis — 10 Anos de Caminhada e a Cura de Buda


Amparados pelos Laços Invisíveis — 10 Anos de Caminhada e a Cura de Buda

O Buda Amida é o 'Buda da Luz da Sabedoria' que quebra a escuridão dos nossos corações. E todos os outros Budas elogiam esse maravilhoso trabalho.

Boa tarde a todos. Sejam todos muito bem-vindos ao nosso templo hoje. Muitas vezes a gente não percebe isso no dia a dia, mas existe uma verdade: "Costumamos julgar as coisas olhando só para o que dá para ver, mas as ligações que são realmente importantes estão guardadas naquilo que não podemos ver." Hoje, eu gostaria de falar um pouco sobre isso.

Normalmente, quando encontramos alguém com quem não concordamos ou alguém que parece mais fechado, tendemos a rotular essa pessoa só por esse lado visível, como o seu "jeito difícil" ou a sua "teimosia", e acabamos nos afastando. Mas, por trás desse jeito mais duro, pode ser que ela tenha se machucado no passado ou que esteja apenas escondendo o seu lado bom para tentar se proteger. No mundo, não existem pessoas que sejam só boas, nem pessoas que sejam só ruins. Qualquer pessoa, assim como você, carrega no coração o carinho, a dor, a alegria e a tristeza, vivendo a vida com tudo isso junto.

Desse jeito, não ficar preso só à aparência e conseguir perceber que "não, não é só isso", é o que chamamos no Budismo de "Sabedoria". E, neste mundo onde a gente não consegue enxergar tudo, a única existência que olha lá no fundo do seu coração e acolhe você por inteiro é o que chamamos de "Buda". O Buda nos dá essa Sabedoria.

Agora, vamos levar esse olhar do coração, que recebemos do Buda, para a nossa ligação com as pessoas queridas que já partiram. Hoje, os senhores e as senhoras vieram ao templo trazendo em seus braços os ihai de seus entes queridos e guardando as lembranças deles no peito. O corpo e a vida deles, de fato, não estão mais aqui neste mundo. Não podemos mais vê-los com nossos olhos, nem ouvir suas vozes. Mas, quando lembramos deles com carinho e tentamos ouvir aquela voz do passado, essas pessoas queridas continuam a guiar os nossos passos, como uma presença quentinha e invisível. Aquele que, mesmo depois de partir, continua a nos apoiar e a nos curar... esse sim é o Buda.

Esse sentimento de dar valor à nossa ligação com as pessoas queridas é o que nos une ao desejo de alcançar a Terra Pura, contando sempre com o amor do Buda Amida. Olhar o mundo como ele realmente é significa, nada mais, do que se esforçar para ver o que está invisível: o carinho e o cuidado que os falecidos continuam a nos enviar todos os dias.

É verdade que a nossa vida tem um fim, mas o caminho que nos conecta desde os nossos antepassados, passando por nós, até os nossos filhos e netos, está unido agora por um fio único que nunca se corta, superando o tempo e o espaço. Hoje, se pudemos alcançar esta festa de 10 anos, foi por causa desse laço invisível com os que vieram antes de nós. É com muita alegria no coração que celebramos esta página bonita da nossa história, escrita com a ajuda do Rev. Shimizu, do Sr. Horii, da Fam. Shibata e de todos os senhores e senhoras aqui presentes.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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O Molde Sagrado e a Sala Vazia do Coração


O Molde Sagrado e a Sala Vazia do Coração

Hoje, cada um de vocês veio a este lugar trazendo seus próprios sentimentos e circunstâncias, reunindo-se para lembrar de pessoas tão importantes. Unir as mãos suavemente em direção a alguém que não podemos ver. Ouvir em silêncio o som dos sutras. Às vezes, de repente, não nos pegamos pensando: "Qual será o verdadeiro sentido desse gesto?" Na verdade, é exatamente nesta forma que vocês estão praticando agora que se esconde a sabedoria mais profunda do budismo.

Costumamos pensar que só depois que o nosso coração estiver completamente limpo, ou depois que entendermos tudo, é que passaremos a viver de forma tranquila como o Buda. Porém, quem alcança a verdadeira paz faz o inverso. Mesmo que as mãos estejam cheias de incertezas e dúvidas, primeiro a gente experimenta "imitar o Buda". Entregar-se ao som dos sutras que vêm sendo cantados desde tempos muito antigos, entrar por inteiro no silêncio do templo e unir as mãos com carinho. Ao entrar primeiro nessa forma sagrada, o nosso coração, que antes estava agitado, vai sendo resgatado e acalmo logo em seguida.

O nosso corpo é feito daquilo que comemos, mas o nosso coração é construído pelas palavras que ouvimos com os ouvidos e por aquelas que pensamos dentro do peito. Quando o coração está seco, acabamos calculando apenas o momento presente: "Será que vou perder algo agora?", "O quanto posso me poupar?". Mas escolher um dia a dia de qualquer jeito, pensando que "assim já está bom", destrói o nosso coração sem que a gente perceba, nos afastando da verdadeira paz.

É muito difícil criar do zero, apenas dentro da nossa cabeça, um mundo de tranquilidade que a gente ainda não conhece. Por isso, mudando só um pouquinho o ponto de vista, tentamos escolher primeiro os ensinamentos do Buda nas pequenas decisões do dia a dia. Experimentamos seguir os seus passos. Em vez de olhar "o quanto vou ganhar", tentamos escolher o valor invisível: "Qual o tamanho da paz que este gesto trará para o meu coração?". Escolher uma refeição, um encontro, e as palavras doces que acalmam alguém. Não é uma falsidade para tentar parecer bom. É, na verdade, um molde muito importante para deixar o calor acolhedor do Buda, que já existe ali, se espalhar e colar no nosso próprio coração. Essa repetição, mesmo que de pouquinho em pouquinho, um dia transforma as nossas palavras, muda o nosso modo de ver as coisas e renova a nossa própria maneira de viver.

No Sutra de Amida, é dito que na Terra Pura "existe tudo". Por outro lado, também se ensina que o mundo da iluminação é um "mundo onde não existe nada". Ter tudo e, ao mesmo tempo, não ter nada. Isso não é uma contradição sem resposta. Hoje, quando vocês pensaram em quem partiu, deixando de lado os ganhos imediatos e os apegos para unir as mãos em silêncio... uma "sala silenciosa e vazia" se abriu no fundo do coração de cada um de vocês. E é exatamente nessa sala vazia que a compaixão infinita do Buda entra e transborda por completo. Sem olhar para preços ou vantagens, experimentamos apenas nos entregar a essa realidade silenciosa. O fato de vocês estarem aqui hoje por causa de alguém importante, unindo as mãos neste momento, é a prova e a entrada mais segura para uma vida de paz, guardada por essa imensa força que chamamos de Buda.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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Além da Escolha: O Solo Firme que Nos Acolhe


Além da Escolha: O Solo Firme que Nos Acolhe

E se apenas uma única escolha tivesse sido diferente? Até o dia de hoje, temos acumulado grandes e pequenas decisões em nossas vidas. Decidimos sair um pouco mais cedo porque sobrou tempo, escolhemos em qual restaurante almoçar, estamos sempre selecionando algo. Colocar ou não açúcar no café hoje? Mesmo diante de um detalhe tão simples, há uma escolha sendo feita.

Diante de nós, abrem-se incontáveis caminhos possíveis. E, no meio dessa infinidade de caminhos, escolhemos sempre apenas um para trilhar até aqui. No entanto, será que estamos realmente escolhendo com total liberdade? Quando olhamos para trás a partir do momento presente, tudo parece assumir um caráter de inevitabilidade. Se tivéssemos pegado um caminho diferente ali atrás, talvez não estaríamos aqui hoje. Se tivéssemos escolhido outra escola, ou feito aquela viagem para outro destino. O que chamamos de mera coincidência por estarmos aqui agora, talvez, no fundo, já estivesse determinado desde o início. Seria isso um milagre inexplicável ou simplesmente a realidade como ela é?

E, a partir de agora, para onde estamos caminhando? O futuro é uma incógnita absoluta para todos nós. Contudo, podemos desejar que o amanhã seja melhor e agir no presente para que isso aconteça. É a isso que chamamos de vida. É justamente por não sabermos o que vem pela frente que nos é permitido carregar a esperança.

Existe uma dimensão que já contempla e acolhe todo esse nosso horizonte, do início ao fim. É o que chamamos de Buda. O futuro que o Buda enxerga para nós é a nossa derradeira passagem para a Terra Pura, o despertar pleno. Não importa qual tenha sido a sua trajetória, nem quais caminhos você acabou escolhendo, o Buda mantém a convicção absoluta de nos conduzir a esse refúgio. É amparados por essa mesma compaixão que as pessoas queridas que partiram antes de nós se tornaram Budas e, hoje, sustentam a nossa caminhada.

Qualquer que seja o descascar dos fatos na sua existência, você jamais será desamparado. Para nós, que caminhamos na incerteza do amanhã, essa presença nos devolve a certeza de um solo firme para onde retornar. Hoje, celebramos o nascimento do mestre Shinran Shonin, aquele que dedicou a vida para nos transmitir essa verdade essencial.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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Este "Eu" como um Recipiente


Este "Eu" como um Recipiente

Hoje, olhamos para esta figura sobre a qual derramamos o chá adocicado (Amacha). É a imagem do nascimento de Shakyamuni, o fundador do Budismo. Dizem que, ao nascer, ele apontou para o céu e para a terra e declarou: "No céu e na terra, o único que pode se tornar Buda é o próprio 'eu' (Ga)." Foi isso que Shakyamuni nos mostrou.

Nós sentimos dor quando temos fome e ficamos ansiosos quando nosso dinheiro diminui. Não importa o que aconteça, não conseguimos parar de pensar em "eu, eu, eu". No mundo, isso é chamado de "Ego" (Ga) — algo que nos ensinam que deve ser reprimido ou corrigido. Mas, na verdade, essa é a forma natural da nossa "vida". É o metabolismo inevitável da existência.

Onde há uma luz forte, há sempre uma sombra densa. O ser humano não pode viver apenas brilhando. Não precisamos perseguir obsessivamente a pureza, a beleza ou a perfeição. Pelo contrário: é justamente este "eu" egoísta e problemático, essa "concavidade" na alma que parece impossível de preencher.

Quando nos rendemos a essa própria imperfeição e percebemos: "Ah, eu só posso ser quem eu sou", é nesse exato momento que a luz da compaixão do Buda transborda e preenche esse vazio. E, assim como somos, nos tornamos um com o Buda. A isso, chamamos de Salvação.

A doçura suave do Amacha é a bênção dos Deuses Dragões do céu. É a alegria pura de encontrar este mundo e esta vida, exatamente como ela é: imperfeita. Por favor, não deixem de provar este chá logo mais em nosso salão. Que possamos passar este dia em gratidão, abraçando este "eu" exatamente como ele se encontra hoje.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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Na Luz Silenciosa do Cotidiano


Na Luz Silenciosa do Cotidiano

Boa tarde a todos. O céu que vimos ao vir para cá hoje. As nuvens que passam, o vento que toca o rosto. Como será o amanhã? Com certeza, todos buscam a felicidade. Cada uma dessas sensações comuns é, na verdade, o próprio “mundo” insubstituível.

Nós costumamos viver com esforço, querendo sempre "melhorar" nossos dias ou "nos tornar alguém admirável". Mas, o que é ser bom? O que significa ser alguém admirável? Não importa o quanto tentemos crescer ou o quanto nos arrependamos, não podemos nos afastar, nem por um segundo, deste imenso fluxo da "vida".

Pode ser que amanhã você esteja sorrindo. Pode ser que esteja chorando. Ou, quem sabe, pode ser que nem esteja mais em lugar nenhum deste mundo. A sua imagem em cada momento — seja sorrindo ou chorando — é apenas o brilho da beleza do mundo, que muda de forma e circula sem descanso junto com você.

Não é necessário se orgulhar de ser "alguém bom", nem lamentar por ser "alguém falho" para poder viver. No meio desta luz comum e calorosa do cotidiano, fomos abraçados desde o início. Aos olhos do Buda, tudo isso nada mais é do que um único e precioso "ciclo".

Não precisávamos ir a lugar nenhum para sermos salvos. Não precisamos ter pressa para fazer algo especial. Basta apenas viver os nossos dias dentro desta luz silenciosa e sem hesitação, fazendo o melhor que pudermos a cada momento. Mesmo que uma sombra profunda caia sob nossos pés. Pois até mesmo essa escuridão é um acontecimento dentro da luz, envolvido pelo olhar acolhedor do Buda. Vamos hoje celebrar juntos este dia de gratidão.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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O Amor por Trás do Silêncio


O Amor por Trás do Silêncio

Boa tarde a todos. Por favor, olhem ao redor. Neste exato momento, estamos presenciando a história viva desta comunidade. Aqui estão as marcas dos "Isseis", os pioneiros, e aqui estão vocês, seus descendentes: "Nisseis", "Sanseis" e as novas gerações. Para vocês que cresceram nesta terra brasileira, a figura dos pais e avós japoneses talvez sempre tenha sido envolta em um certo "mistério". Muitos de vocês devem ter se perguntado: "Por que eles eram tão rigorosos e bravos?" "Por que não expressavam seus sentimentos de forma mais clara?"

Essa atitude severa pode ter parecido frieza ou distância. Talvez, lá no fundo, vocês sentissem que não eram compreendidos por seus avôs. Mas hoje, permitam-me traduzir o coração desses "homens silenciosos" para vocês. Não era frieza. Primeiramente, havia a barreira do idioma, como todos sabem. Mas havia algo mais profundo. Eles carregavam o espírito de uma época do Japão, entre a Era Meiji e a guerra, onde a educação valorizava uma postura que hoje pode parecer estranha: o espírito dos Samurais.

Era uma cultura onde o amor não era falado com palavras doces, mas demonstrado através da força, da honestidade e da postura inabalável. E aqui, nesta terra desconhecida, essa postura se tornou a forma mais extrema de amor para garantir a sobrevivência. Quando os pioneiros chegaram aqui, não havia garantias. Não havia ajuda. Um momento de fraqueza, um único ato de "mimar", poderia colocar em risco a vida de toda a família. Para proteger a família, eles tiveram que blindar seus corações, tornando-os duros como rocha. Eles acreditavam que torná-los fortes para sobreviver nesta terra era o único e maior "amor" que podiam oferecer.

Se eles mantiveram silêncio sobre as lágrimas do passado ou sobre como era o Japão, não foi apenas pela dificuldade com o português. Foi porque eles queriam que vocês olhassem para o futuro neste país, e não para o passado. Se o Japão fosse um paraíso perfeito, eles não teriam vindo para o Brasil. Eles acreditaram que o futuro de vocês estava aqui, nesta terra. E o resultado está aqui: esta comunidade Nikkei que eles construíram. A vida confortável que temos hoje foi construída sobre o alicerce desse "ideal silencioso".

Mas agora, os tempos mudaram. O sentimento que eles guardaram por tantos anos, hoje é compartilhado e compreendido por nós. Eu, como monge vindo do Japão, assumo a responsabilidade de proteger e transmitir essa cultura espiritual e histórica. A partir de hoje, peço que olhem para seus pais e avós, os imigrantes Isseis, não como pessoas severas ou distantes. Mas sim como pessoas que, dentro daquele olhar silencioso, carregavam um amor profundo e desesperado por vocês.

Este templo é o lugar que guarda esses sentimentos dos pioneiros e transmite sua missão. O Budismo possui um "Olhar Precioso" que vê através do longo fluxo do tempo, conectando passado, presente e futuro. É por isso que os Isseis puderam descansar seus corações, confiando o futuro a vocês. Eles carregavam os ensinamentos de Meiji e talvez fossem fortes como samurais. Mas, talvez, nas noites em que olhavam a lua sozinhos, eles também segurassem as lágrimas e a solidão dentro do peito, suportando tudo em silêncio... Vamos, a partir de agora, valorizar este "Muito Obrigado" (Arigatou) que conecta todas as gerações.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

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Para Além da Saudade: O Elo que Nunca se Rompe


Para Além da Saudade: O Elo que Nunca se Rompe

Boa tarde a todos e Feliz Ano Novo a todos. Sinto uma grande alegria em poder celebrar o início deste novo ano reunido com todos vocês. No início de um ano, costumamos fazer promessas e olhar para o futuro com esperança. Mas, no fundo do coração, existe uma inquietude que não conseguimos colocar em palavras: a solidão de sentir que, um dia, desapareceremos deste mundo e seremos esquecidos por todos.

Pensem nos ritos de despedida no Brasil. Eu já presenciei centenas de sepultamentos e vi muitas lágrimas serem derramadas. Porém, assim que a cerimônia termina, o mundo volta ao normal como se nada tivesse acontecido. Ao ver como as pessoas se adaptam rápido à ausência de quem partiu, sentimos um vazio: "Será que o mundo não sentirá nem um pequeno arranhão com a minha partida?".

Para preencher esse vazio, tentamos mostrar aos nossos filhos como honramos nossos pais e antepassados. No fundo, é uma resistência contra a solidão; esperamos que, ao cuidarmos da memória deles, nossos filhos façam o mesmo por nós no futuro. Mas a memória humana é frágil e tudo o que tem forma acaba desbotando com o tempo.

É aqui que entra a sabedoria budista. Ela nos ensina que o reencontro não é algo que acontecerá apenas no futuro. Reencontrar é perceber que, sob o olhar da compaixão, nunca estivemos separados. Quando unimos as mãos em prece, aqueles que partiram deixam de ser apenas uma lembrança e tornam-se a força que guia nossos passos hoje.

Mesmo que o mundo nos esqueça, existe uma Memória Infinita que abraça cada detalhe da nossa vida. Nesse abraço, descobrimos que nunca estivemos sozinhos. Desejo que este novo ano seja uma caminhada sentindo a profundidade de que cada passo é sustentado por esse grande afeto.

Rev. Josuke Inoue (釋 穣信)

Monge responsável do Templo Honpa Hongwanji de Mogi das Cruzes

Missionário — Jodo Shinshu Hongwanji-ha, Distrito Sul-Americano

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